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Alcobaça, a Nossa
Micro-Economia e o Fantasma da China
A pergunta surgiu-me naturalmente,
quando atravessávamos uma das zonas industriais da cidade alemã
de Leipzig. _ Não está a industria alemã a ser afectada por esta
crescente força de mobilização da produção industrial para a
China?
_ Não! _ Respondeu o meu colega nascido nesta mesma província da
Saxónia.
Na realidade a indústria alemã atravessa um bom momento, com um
aumento de encomendas e consequente volume de exportações.
Os alemães não receiam a China. Aliás, conseguem mesmo ver este
grande país do Oriente de outra forma, como um mercado
emergente, de grande potencial e uma grande oportunidade de
negócio. A China, para além de grande produtor, é também um
gigantesco consumidor, em especial de produtos de luxo, mercado
em grande expansão e que muito tem atraído as principais marcas
mundiais deste segmento. É aí que se torna no alvo preferido de
empresas como a Porshe, Audi, Mercedes, etc.
Este é um pequeno exemplo, mas muito expressivo deste fenómeno,
que tem transfigurado a economia mundial.
Em Portugal, o lado oposto desta
realidade, não se consegue esta percepção e está sempre presente
o lado ameaçador do mercado Asiático. E isto porquê? Porque
sofre tanto a indústria portuguesa com esta abertura aos novos e
emergentes mercados do outro lado do globo? Que diferenças há
então entre a nossa indústria e a alemã?
A resposta é simples e a diferença é só uma. Desde sempre que os
empresários portugueses, com os alcobacenses incluídos, optaram
pela via mais fácil, pela produção em função das encomendas de
terceiros, dos grandes grupos, das grandes marcas. Sim, é na
criação da Marca que está a diferença. Os nossos empresários
nunca conseguiram criar as marcas próprias, a sua identificação
do seu produto e a sua imagem. Isto, associado a uma posterior
divulgação no mercado nacional e até mesmo exterior, em especial
Europeu.
Que interessa produzirmos os
melhores sapatos, as melhores roupas, o melhor vidro, se depois
esses produtos são vendidos para fora e etiquetados com marcas
estrangeiras sem qualquer referência ao nosso país? Que vantagem
tem a economia portuguesa, quando esses produtos são vendidos
pelas nossas fábricas a preços baixíssimos, com reduzidíssimas
margens de lucro? Na realidade o produto chega ao consumidor
final com um preço elevado, mas a margem mais significativa, o
grande lucro fica na Marca, não em quem produz. Podemos imaginar
um telemóvel da Nokia que é produzido numa qualquer fábrica da
Ásia por 50€ e que depois é vendido por cerca de 400€. A marca
compra barato e vende caro, obtendo assim um lucro bastante
expressivo.
A produção industrial quer-se
barata e é onde se verifica uma maior competição. As suas
margens de lucro são reduzidas aos mínimos para se conseguirem
bons contratos e tornam-se assim insignificantes. A maior fatia
cabe sempre à marca, que na quase totalidade das vezes é um
grande grupo estrangeiro, como a Timberland, a Benetton ou a
Lacoste. Todos sabemos que são produzidas cá, mas que nos dão
muito pouco…
A somar a este problema da pouca
rentabilidade está o também já referido factor da elevada
concorrência e grande competição de preços, e que tanta produção
tem então levado para a China e países limítrofes.
São estas as grandes desvantagens,
e é por isto que a Alemanha não é afectada. As marcas são suas.
A Audi, Porshe, Mercedes e outras marcas até como a Siemens são
Alemãs. Até podem transferir alguma da sua produção para outros
mercados, mas têm controlo nela, e as suas principais fábricas
não saem do seu país.
Analisando a realidade de
Alcobaça, o filme é o mesmo. Possuímos por exemplo faiança da
melhor qualidade mas que no entanto atravessa uma crise
implacável. Custa-me ver que produtos lindíssimos como os nossos
não tenham grande futuro porque infelizmente falhámos na criação
das nossas marcas. Custa-me chegar a grandes armazéns como o
Karstadt na Alemanha, as Galerias La Fayette em França ou até
mesmo o El Corte Inglês em Portugal ou Espanha e encontrar
inúmeras marcas de porcelanas e outros produtos e nenhuma delas
ser portuguesa. Ainda mais quando sei que muitos desses produtos
até podem ter sido produzidos entre nós.
Poderíamos facilmente lá entrar e
encontrar uma secção por exemplo das cerâmicas S. Bernardo, Raul
da Bernarda, etc. Podiam ser estas, imagens de marca destes
produtos, as formas como as pessoas os identificariam e a
confiança que lhes depositariam. Ao invés de termos loiças da
“Leonardo” ou “Sander” teríamos das nossas próprias marcas, que
venderiam igualmente os seus produtos, a preços bastante
superiores ( aos que são vendidos actualmente à marca ) e com
margens de lucro obviamente maiores. Positivo para as empresas,
para os seus funcionários que até poderiam auferir maiores
salários e para a economia do país.
A China, seria então desta forma
olhada como mais um potencial mercado de venda. Estou certo que
as nossos produtos, se devidamente divulgados e conhecidos
seriam facilmente vendidos em lojas da cosmopolita Shangai ou
Hong-Kong.
Teria no entanto de haver um outro
tipo de gestão e orientação destas empresas, que teriam de
deixar a sua estrutura familiar e recrutar grandes “experts” das
áreas de marketing, publicidade, comercial, etc. Um outro tipo
de investimento cujos frutos trariam um outro tipo de futuro
para todos. É isto que também assusta os nossos empresários, que
têm medo de perder o controlo daquilo que criaram e de abrir mão
de algo que não querem ver nas mãos de outros. É o preço do
crescimento e da afirmação.
Felizmente, já vamos assistindo a
alguma tendência neste sentido e temos até um bom exemplo em
Alcobaça. Após a criação da marca “Maçã de Alcobaça”, o seu
volume de vendas cresceu significativamente. Conseguimos criar a
marca, e conseguimos vendê-la!
Importa agora que sejamos capazes
de generalizar este conceito sob pena de perdermos toda a nossa
capacidade de criação. Ficaremos num vazio se nada for
urgentemente feito e acabaremos por andar à míngua sob a
dependência de estranhos que não têm quaisquer preocupações
connosco.
Mário Bernardes |