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A Introdução da Ferrovia em Alcobaça
A presença de caminho-de-ferro no concelho de Alcobaça
resume-se à Linha do Oeste, que atravessa a zona litoral do
concelho desde S. Martinho do Porto a sul até Pataias/Martingança
a norte. Trata-se de uma linha de via única, não electrificada e
de traçado muito pouco funcional, dada a data da sua construção,
ainda em pleno séc. XIX. Não obstante ao esquecimento a que foi
votada, a linha foi sobrevivendo mas sempre muito abaixo do seu
verdadeiro potencial. De facto, um dos grandes obstáculos é sem
dúvida o seu traçado, que dada a altura da sua construção, se
encontra completamente desajustado das necessidades actuais. Na
região de Alcobaça, a linha do Oeste fica longe dos principais
centros urbanos, longe da sua área de abrangência e longe dos
seus principais pólos industriais.
Com a concorrência do transporte rodoviário, a linha foi
perdendo sucessivamente prestígio e toda a sua viabilidade. Este
novo concorrente, ganha forte vantagem na proximidade que pode
ter das populações e indústrias. No entanto, com a crise dos
combustíveis que se vive e com o impacto que poderá ter no
futuro, o uso do transporte ferroviário volta a estar na ordem
do dia, volta a ser equacionado e até finalmente considerado
como a hipótese de futuro no sector dos transportes. Isto,
porque o comboio apresenta uma grande vantagem, é completamente
independente de qualquer tipo energético específico, ou seja, o
comboio é movido a electricidade que pode ser obtida tanto dos
combustíveis fósseis, como das renováveis e até nuclear.
Qualquer que seja a evolução no sector energético, não há
necessidade de qualquer alteração, de qualquer investimento e
adaptação deste tipo de meio de transporte.
Posto isto, começa a ser importante uma nova abordagem ao
transporte ferroviário e o reinvestimento quer nas linhas
existentes, através da sua melhoria e adaptação às necessidades
actuais, quer em futuras linhas que complementem o serviço
prestado pelas que já existem. Actualmente já se caminha nesse
sentido e foram já anunciados investimentos importantes como a
electrificação e melhoria da Linha do Oeste e a recuperação da
antiga Linha Setil/Santarém - Rio Maior, com um novo
prolongamento até às Caldas da Rainha. Para o concelho de
Alcobaça, mantemos a mesma desactualizada linha do Oeste e
talvez a polémica construção da linha de Alta Velocidade que não
trará benefícios directos para o concelho.
Equacionada há algum tempo atrás foi a construção de um outro
troço de ligação entre a Linha do Oeste, mais a norte (entre
Valado de Frades e Pataias), e Rio Maior, para continuação
depois até à linha do Norte. Esta hipótese, ao que parece não
vingou, pois não aparece mencionada no PROT-OTV, Plano Regional
de Ordenamento do Território do Oeste e Vale do Tejo,
actualmente em discussão (http://consulta-protovt.inescporto.pt),
nem sequer o lançamento de qualquer estudo sobre a sua
viabilidade.
Esta não consideração obviamente que é muito negativa para
Alcobaça e o seu concelho e contribuirá mais uma vez para o seu
isolamento/afastamento dos restantes centros urbanos. Resta
agora que seja feita alguma pressão tanto pelos nossos
governantes locais como até mesmo pela população que se deverá
unir em prol deste factor de centralidade. A nova linha Pataias
– Rio Maior, que poderemos apelidar de Linha Oeste Interior
poderá ter um grande potencial e um impacto muito significativo
em toda a região, e não só Alcobaça.
Seguidamente será apresentada uma ideia mais detalhada sobre
a possível Linha Oeste Interior.
Linha
do Oeste Interior
O
panorama actual do transporte ferroviário na zona de Alcobaça
resume-se à antiga Linha do Oeste. Pode-se considerar também o
futuro atravessamento pela linha de Alta Velocidade que, a ser
uma realidade, esperamos que o seja o mais próximo possível do
sopé da Serra dos Candeeiros.

Assumindo a recuperação/construção da Linha Setil/Santarém –
Rio Maior – Caldas da Rainha e a instalação de duas interfaces
na linha de AV em Leiria e Rio Maior, cria-se uma interligação
importante entre estas três linhas mas que denota uma visível
lacuna, tanto ao nível da operacionalidade como do possível
universo de utentes que poderá servir.
Considerando também as zonas industriais de toda a região,
facilmente se constata que existe um corredor central que ficará
alheio a todo este sistema.
De realçar
que a Zona Industrial do Casal da Areia, mesmo estando próxima
da Linha do Oeste, não possui qualquer interligação com a mesma.

Assim, e por forma a colmatar esta deficiente cobertura em
termos de serviço seria de elevado potencial a criação de uma
ligação entre a Linha do Oeste na zona de Pataias e Rio Maior,
servindo a Zona Industrial do Casal da Areia, as localidades de
Maiorga, Alcobaça, Turquel e Benedita e a futura ALE da
Benedita.
Em termos locais seria beneficiado o acesso às duas maiores
zonas industriais do concelho, a Z.I. do Casal da Areia e a
futura ALE Benedita e a algumas das nossas localidades de maior
número de habitantes.

Em termos globais o impacto seria bastante mais forte sendo
facilitadas as ligações da zona oeste norte à zona sul, com
ligação depois à Linha do Norte ( seguindo a nova linha Rio
Maior – Setil/Santarém ), interligação de algumas das mais
importantes zonas industriais, como a Marinha Grande, Pataias,
Casal da Areia, ALE Benedita e Rio Maior, possibilidade de
ligação destas zonas industriais à futura plataforma logística
do Poçeirão e Novo Aeroporto de Lisboa, melhoria também das
ligações a norte, com a previsão da ligação entre a Linha do
Oeste em Leiria e a Linha do Norte em Pombal, e a união de
alguns dos centros urbanos mais importantes da zona centro, como
Santarém, Rio Maior, Benedita, Alcobaça, Marinha Grande e
Leiria.
Dada a cada vez maior importância do tempo de viagem como
factor de escolha de um determinado meio de transporte, através
desta nova linha seria facilitado o acesso das cidades de Leira
e Marinha Grande à Linha do Norte ( direcção a sul ) com uma
significativa poupança do tempo de viagem através de uma ligação
bastante mais directa.
O
levantamento de todos os pontos positivos e negativos desta
infra-estrutura é apresentado na seguinte tabela de valorização:
|
Aspectos Positivos |
Aspectos
Negativos |
|
+
Ligação mais directa entre Leiria e Marinha Grande e
Lisboa via Linha do Norte sem necessidade de passar
pelas Caldas da Rainha cujo trajecto é maior e penaliza
o tempo de viagem
+
Ligação do Oeste Norte mais rápida ao NAL
+
Ligação dos vários centros urbanos, Santarém, Rio Maior,
Benedita, Alcobaça, Pataias, Marinha Grande e Leiria
+
Possibilidade de transporte de mercadorias das zonas
Industriais da Marinha Grande, Casal da Areia, ALE
Benedita, Rio Maior ao NAL e Plataforma logística do
Poceirão
+
Arco de Ligação à RAV em Leiria e Rio Maior, para
facilitar acessos à nova rede tanto no sentido norte
como no sentido sul
+
Rápido acesso de toda a zona à capital de distrito a
norte e à capital do país a sul
+
Descongestionamento da actual Linha do Norte com uma
distribuição mais eficaz dos passageiros
+
Descongestionamento do IC2
+
Dotar de um meio de transporte mais cómodo, eficiente e
menos poluente uma das regiões do país de maior
densidade populacional e maior potencial turístico |
-
Custos de construção e complexidade na escolha do
trajecto, dado atravessar uma zona densamente povoada
-
Custos de manutenção
|
A nova linha teria início em Rio Maior, na grande interface
de ligação entre a Rede de Alta Velocidade, a Linha Setil/Santarém
– Caldas da Rainha e a Linha Oeste Interior. Rumo a norte,
poderia utilizar o mesmo corredor da linha de AV no
atravessamento da Serra dos Candeeiros e assim reduzir os custos
de construção no local de orografia mais complicada.
De modo a tornar esta opção o mais atractiva e funcional
possível, terá de haver o cuidado de construir todas as estações
de passageiros o mais próximo possível do centro das
localidades. Isto leva a uma muito maior independência do
transporte automóvel e encurta também o tempo dispendido em
viagem.

A Benedita possuiria duas estações, uma na entrada da ALE
Benedita, de passageiros/interface para mercadorias e outra no
centro da vila exclusiva a passageiros.

A próxima estação, seria em Turquel, também com o cuidado de
a aproximar o mais possível do centro da localidade. A Ligação
entre a Benedita e Turquel não requer grande investimento dado
que se trata de uma zona relativamente plana.

A partir de Turquel, e em direcção a Alcobaça há que ter em
conta alguns cuidados, pois s orografia torna-se bastante mais
instável. O ideal seria servir também a sede de freguesia Évora
de Alcobaça, mas uma passagem por esta localidade aumentaria
substancialmente os custos de construção da linha. O ideal será
a continuação da linha sempre pela zona mais plana, e menos
povoada, até à zona entre as localidades de Carris e Fonte
Santa. Aí rumará aos Capuchos e posteriormente a Alcobaça.

Em Alcobaça, sede do concelho, a passagem da linha
ferroviária torna-se mais complicada dada a maior densidade de
construções e também o facto de a cidade ocupar a quase
totalidade do vale onde se encontra. A construção de uma estação
exactamente no centro também não é viável.

A única opção é a da construção da estação de passageiros na
rua de Leiria, junto à nova rotunda com a VCI e aproveitar o
actual corredor ainda vago a oeste do Bairro da Quinta da Roda,
onde se encontra um antigo concessionário automóvel, e onde
futuramente será também feita uma ligação entre a VCI e o futuro
IC9. A linha contornará a urbanização Nova Alcobaça e será
elevada sobre o rio Alcoa e a Rua de Leiria, podendo a própria
estação ser também elevada.
A norte de Alcobaça surge de novo uma zona de construção mais
difícil com a existência de várias e significativas elevações.
Existe ainda assim um pequeno corredor que poderá ser utilizado
e que dá acesso a um vale na zona da Maiorga. Seguindo pelo vale
entra-se de nova em zona plana e de maior facilidade de
construção.

O troço final entre a Maiorga e a Linha do Oeste, passando
pela Zona Industrial do Casal da Areia, é todo ele numa zona
completamente plana. A ligação à linha do Oeste poderá ser feita
através de dois ramais, um para norte e outro para sul com
ligação à estação do Valado de Frades.
A Zona
Industrial do Casal da Areia será também contemplada com uma
estação mista de passageiros/interface de mercadorias.

Um prolongamento a estudar será depois a continuação da linha
entre o Valado de Frades e a Nazaré, com possibilidade de
transporte de passageiros a este importante centro turístico de
veraneio, e também a ligação à futura zona industrial da Nazaré.

No total são apenas cerca de 35Km ( +10Km incluindo a
extensão à Nazaré ) de nova linha ferroviária mas com um impacto
muito significativa na vida das populações. Trata-se de um
universo de mais de 200.000 pessoas e onde a taxa de utilização
poderá ser bastante elevada. Não esquecer que a cidade de Leiria
fornece uma fatia significativa do número de empregos da região
em questão. O acesso directo a todas as grandes zonas
industriais e aos principais centros urbanos é também apelativo
e funcional. Acrescendo o valor turístico da região, há mesmo
que acreditar que a construção da Linha Oeste Interior poderá
ser a alavanca para o desenvolvimento de uma região que tem sido
sucessivamente esquecida e ultrapassada, e cujo potencial está
bastante subaproveitado.
Paralelamente poderão ser equacionadas outras hipóteses e
outros estudos, como por exemplo o lançamento de um
projecto-piloto de aproveitamento de energia eólica da Serra dos
Candeeiros para alimentação de todo este sistema. Com facilidade
se criará um sistema de transportes rentável e auto-sustentado
que poderá mesmo servir de objecto de estudo para futuras
aplicações.
Mário Bernardes
2008
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